quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Povo escolhido




A expressão “povo escolhido” é usada, abusada e ridicularizada como referência a Israel em comentários nas redes sociais. Cristãos bem intencionados usam repetidamente esta expressão para defender o “povo de Deus” dos ataques dos meios de comunicação e dos movimentos anti-sionistas.

Na tradução bíblica de João Ferreira de Almeida há 207 expressões “meu povo”, 7 das quais no Novo Testamento. Grande parte destas expressões nem sequer são “mimos” por parte de Deus, antes pelo contrário, são correcções, exortações e castigos. Portanto, assumamos desde já que ser “filho” não é por si só um privilégio mas também são aplicadas punições. Além do mais, o profeta Oseias lança um aviso profético: “… Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada.” Romanos 9:25 (citação de Paulo resumindo Oseias 1:9,10)

Mas porque Deus escolheu a Israel para lhe chamar meu povo? Qual a razão da Bíblia ser a carta de Deus para os homens e guia para nos conduzir à eternidade? Onde foi que esta história começou?

Depois de “pularmos” a história da criação e percebermos a vontade que Deus foi sempre ter um relacionamento com a sua criação, o Homem, chegamos a Noé onde o Criador se enfastia da corrupção humana e recomeça tudo de novo a partir de uma família só. Mais uma páginas à frente, encontramos um homem, Abraão que recusa contaminar-se com a ganância e luxúria dos habitantes de Sodoma e Gomorra preferindo ser amigo de Deus e de quem o próprio Eterno não consegue esconder coisa alguma.

O primeiro registo do relacionamento de Abrão com Deus é este: “Ora, o Senhor disse a Abrão: “Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção. Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Genesis 12:1-3)

O resumo deste começo pode ser qualquer coisa como isto: Havia um homem que tinha um relacionamento com Deus; Deus promete-lhe uma terra e prosperidade; e promete também uma descendência através da qual todas as famílias da terra seriam abençoadas! A um dos filhos de Abraão nasce Isaque. Isaque tem dois filhos, Esaú e Jacó, gémeos, e Jacó que mais tarde é chamado Israel. Israel tem doze filhos e à descendência de Judá é prometido o Messias, Jesus, redentor de Israel e da humanidade.

Êxodo 19:5  “Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra.” Foi assim durante muitos anos o relacionamento de Deus com um povo; um relacionamento de direitos e deveres; de promessas e mandamentos para cumprir.


“Povo escolhido”, a expressão mais vulgarizada, é utilizada apenas uma vez na Bíblia e lamentavelmente não é por uma razão positiva: “Assim virá o rei do norte, e levantará baluartes, e tomará uma cidade bem fortificada; e as forças do sul não poderão resistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força para resistir. (Daniel 11:15)


“Povo escolhido” é isto: um povo que teve na sua liderança homens que se mantiveram “mais ou menos” em obediência aos preceitos de Deus. Para contrariar a “pureza do sangue” e para lembrar o propósito de Deus para abençoar todas as nações, entram na linhagem messiânica duas mulheres estrangeiras, uma prostituta, Raabe e uma moabita, Rute, descendente de uma relação incestuosa do sobrinho de Abrão, Lot, com as suas filhas!


Além do propósito de Deus, escolhendo um povo para trazer o Messias ao mundo, há ainda um outro: “para que todos os povos da terra conheçam que a mão do Senhor é forte; a fim de que vós também temais ao Senhor vosso Deus para sempre.” Josué 4:24. E foi assim mesmo, O Deus de Abraão, Isaque e Jacó era conhecido em muitas partes do mundo, do Oriente até à Europa, pois durante às três principais festas do santuário, Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos, nos dias de Jesus, compareciam muitos estrangeiros de diferentes partes do mundo.

Exactamente como os profetas disseram, Jesus é rejeitado pelo seu povo e Ele próprio, O Messias chora: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!” (Mateus 23:37)


Outra expressão bíblica aplicada ao “povo escolhido” é “raça”. “Raça santa”, “raça maligna”, “estou trazendo o mal sobre toda a raça”, “raça de víboras” quatro vezes, “contra a nossa raça” como alusão a um Faraó que maltratava o povo hebreu no Egipto, e “minha raça” como expressão de Paulo referindo-se ao seu próprio povo de forma pouco agradável.


Outra palavra bíblica usada referido-se ao “povo escolhido” é “eleita”: “pedra eleita”, geração eleita” e “co-eleita em Babilónia” por Pedro; “senhora eleita” e “eleita” por João.


Claramente, agora, “povo escolhido” é aplicado a judeus e gentios unidos pelo cumprimento da palavra proferida pelos diferentes profetas ao longo da história e no domínio do propósito alcançado por Deus, por via da escolha de um povo através do qual desde Adão “regressa à terra” um novo Homem para dar início a uma nova história da humanidade.


Portanto, aplicar “povo escolhido” a um povo só é muito redutor e pobre e se for mal aplicado pode resultar em muita confusão.


Contudo, rejeitar o irmão mais velho e preferir o irmão mais novo parece também uma aberração. O Pai ama os dois filhos do mesmo modo. Jesus demonstra claramente que pelo facto do filho mais velho ter ficado em casa isso não o torna especial relativamente ao mais novo, apesar de este ter andado pelo mundo sem valores e sem princípios a desperdiçar tudo quanto o Pai lhe tinha doado por motivo da sua inconsciência e perversão. Nenhum Pai gosta de ver os seus filhos a lutar um com o outro por privilégios especiais, ele ama aos dois do mesmo modo e sabe que coisas diferentes cada um deles necessita.

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